LIVROS : Escritor revela as minúcias da origem de sua família através de livro genealógico

O autor paulista Henrique Chagas, natural de Presidente Prudente, construiu uma narrativa que vai muito além dos aspectos históricos que envolvem as origens de sua família.

Ana Claudia Vargas*

Tudo começou com uma descoberta simples sobre as origens de seu sobrenome. Segundo o escritor, foi a ” ruptura entre memória oral e registro histórico” que o  levou além da mera curiosidade genealógica. “Com o avanço da investigação, ficou claro que a história da minha família se entrelaçava a processos centrais da formação do oeste paulista e do próprio Brasil: como a diáspora mineira, os conflitos fundiários e o etnocídio indígena”, revela.

Na entrevista a seguir, Henrique Chagas nos conta como foi o processo de pesquisa minuciosa em torno da escrita de seu livro Tavares Terra*.

PPG+: O que levou você ao desejo de escrever sobre a história da sua família?
Resposta: A motivação para escrever o livro Tavares Terra surgiu do cruzamento entre minha paixão pela história e a descoberta de que José Theodoro de Souza, conhecido como o “último dos bandeirantes”, era primo do meu tataravô João Tavares Terra. Ao investigar a genealogia da minha família, conhecida pelo codinome Terra, embora oficialmente assinássemos Chagas (visto que meu bisavô foi registrado como Francisco Leite das Chagas) cheguei a esse parentesco que até então eu não havia percebido, apesar de já conhecer estudos de historiadores regionais sobre ele. Ao mesmo tempo, havia uma inquietação pessoal: a narrativa familiar sobre a suposta mudança de sobrenome do meu avô, Antonio Terra, não se confirmou nos documentos. Essa ruptura entre memória oral e registro histórico me levou a ir além da curiosidade genealógica. Com o avanço da investigação, ficou claro que a história da minha família se entrelaçava a processos centrais da formação do oeste paulista e do próprio Brasil: como a diáspora mineira, os conflitos fundiários e o etnocídio indígena.

Tavares Terra nasce desse encontro entre o familiar e o coletivo, como um exercício de micro-história que busca reconciliar memória e verdade histórica, sem idealizações, iluminando os bastidores da história nacional a partir de trajetórias comuns.

PPG+:  Qual foi o maior obstáculo que encontrou na pesquisa? 

Resposta: O maior obstáculo da pesquisa foi enfrentar as lendas, mitos, apagamentos e as distorções do passado. Os registros disponíveis são fragmentados, imprecisos e marcados por variações de nomes e sobrenomes, o que exigiu um rigoroso cruzamento entre fontes e uma investigação paciente em arquivos eclesiásticos, cartórios antigos e estudos acadêmicos dispersos em universidades da região, além do diálogo com historiadores regionais.

Outro desafio central foi de natureza ética. A pesquisa revelou aspectos duros da
formação regional, como a guerra contra os povos originários, episódios de violência extrema, entre eles o massacre de Avaré em 1850, a grilagem de terras e o papel de figuras centrais da própria linhagem nesse processo, como José Theodoro de Souza.

Tratar dessa história sem idealizações, julgamentos, assumindo suas contradições e responsabilidades, foi fundamental para manter a fidelidade histórica e a integridade do trabalho.

“Ao encarar o passado com honestidade, somos levados a reconhecer não apenas conquistas, mas também as violências que moldaram nossas  famílias e o próprio país, rompendo com narrativas confortáveis e idealizadas. Tavares Terra propõe uma reflexão sobre memória, pertencimento e responsabilidade histórica, entendendo o conhecimento das raízes como um gesto ético, e não como simples nostalgia.” (Henrique Chagas) – foto acervo pessoal

 

PPG+:  Que tipos de documentos foram importantes em seu processo de
pesquisa?
Resposta: Foram essenciais os registros paroquiais de batismo, casamento e óbito, sobretudo do período anterior à instituição do registro civil, além de certidões cartoriais, inventários, testamentos e documentos relacionados à posse da terra. Esse conjunto permitiu reconstruir vínculos familiares, percursos migratórios e formas de organização patrimonial ao longo das gerações.
Complementaram essa base documental os processos judiciais, registros do Tribunal do Santo Ofício, mapas históricos, obras de memorialistas, bibliografia acadêmica especializada e os relatos orais preservados na memória familiar, fundamentais para contextualizar os dados, compreender o que escondiam os arquivos e conferir densidade histórica à narrativa.

PPG+:  Como você se organizou para tornar a narrativa coesa em meio a tantas informações?
Resposta: A organização da narrativa seguiu um princípio central: converter a pesquisa em narrativa histórica. O livro foi estruturado a partir de eixos cronológicos e núcleos familiares, adotando a micro-história como método, sempre partindo de personagens e episódios concretos para alcançar processos históricos mais amplos.

Durante a escrita, houve um trabalho constante de seleção e depuração do material. Apenas os documentos, fatos e passagens que contribuíam para a compreensão da  trajetória histórica coletiva foram incorporados, o que permitiu equilibrar rigor documental e fluidez narrativa, garantindo coesão, clareza e unidade ao conjunto da obra.

PPG+: De que forma confirmou informações que eram apenas “histórias de família”?
Resposta: As chamadas “histórias de família” só foram incorporadas ao livro após verificação documental. Sempre procurei confrontar esses relatos com registros paroquiais, certidões cartoriais e o cruzamento com fontes históricas e bibliográficas. Nesse processo, muitas narrativas familiares foram desmistificadas ao não resistirem à documentação, o que me levou a investigar as possíveis motivações para sua construção, como a tentativa de ocultar origens, suavizar conflitos, interesses estratégicos, preservar reputações ou reorganizar simbolicamente a memória familiar. Esse método revelou, por exemplo, práticas recorrentes de casamentos estratégicos entre primos e entre irmãos de diferentes famílias, utilizados para manter terra, poder e herança concentrados em um mesmo grupo.

No caso de José Theodoro de Souza, três irmãos se casaram com três irmãs da família Tavares da Cunha, padrão que também se repetiu entre os Tavares Terra e os da Silva Passos. Esses arranjos evidenciam um controle familiar rígido e patriarcal e ajudam a compreender as dinâmicas sociais da época: um campo de investigação que, por si só, poderia fundamentar estudos acadêmicos aprofundados.

PPG+: Algum dos seus antepassados tem uma história, digamos mais marcante do que a dos demais?
Resposta: José Theodoro de Souza se destaca como a figura mais marcante, por ter sido líder da marcha mineira rumo ao sertão do Paranapanema e símbolo dos paradoxos da colonização: capacidade de liderança e fundação de núcleos urbanos, mas também violência, expropriação de terras e etnocídio indígena. A participação dos Tavares Terra nesse processo exigiu uma abordagem crítica, sem idealizações e julgamentos. Além dele, a história da minha pentavó Quitéria é particularmente reveladora das dinâmicas sociais do período. Três de seus filhos se casaram com três filhos da família Tavares da Cunha, reforçando alianças patrimoniais e familiares. Após enviuvar-se em novembro, Quitéria casou-se em janeiro do ano seguinte com o irmão mais velho dos genros, já grávida, e seu filho nasceu em março. Episódios como esse, longe de serem exceções, ajudam a compreender as estratégias de sobrevivência, controle familiar e organização patriarcal vigentes à época, conferindo densidade humana e social à narrativa.

O bandeirante José Theodoro de Souza (sentado), figura central da pesquisa que resultou no livro, com o filho Theodorinho (com a mão em seu ombro) e dois companheiros. (Acervo de Luiz Carlos de Barros) (fonte imagem_ http://pioneirosdopardo.blogspot.com/p/jose-theodoro-de-souza-o-primo.html)

PPG+: De onde vem o sobrenome Tavares Terra? 

Resposta: O sobrenome Tavares Terra tem origem portuguesa, sendo “Tavares” ligado ao antigo conselho de Tavares, na região da Beira Alta, de onde provém a linhagem original (meu 26° avô Pedro Viegas de Tavares). No Brasil, o acréscimo “Terra” foi adotado de forma consciente por Manoel Tavares Terra (meu tetravô), filho de João Tavares da Cunha e neto de Henrique Tavares da Silva, descendente direto dos Tavares portugueses, com o objetivo de identificar e diferenciar seu ramo familiar. A partir dessa a adoção, o sobrenome Terra consolidou-se ao longo das gerações como marca identitária do grupo, após anos 1800. Mesmo quando não aparecia de forma constante nos registros oficiais, passou a funcionar como um nome de pertencimento e reconhecimento familiar, preservado pela tradição oral e pelo uso social, tanto que meu pai, embora tivesse o sobrenome civil Chagas, foi conhecido por José Terra, meu avô por Antonio Terra.

PPG+: Houve algum ‘segredo de família’ que sua pesquisa revelou?
Resposta: A pesquisa revelou que os principais “segredos de família” não se resumiam a um  único episódio, mas a um conjunto de apagamentos (cancelamentos) cuidadosamente preservados. Um deles foi a constatação de que a suposta mudança de sobrenome do meu avô não correspondia à realidade documental, ocultando questões mais profundas ligadas às origens familiares, às migrações forçadas e aos rearranjos identitários ao longo das gerações.

Outros segredos revelados foram ainda mais sensíveis: o degredo de Henrique
Tavares da Silva para o Brasil, em 1652, condenado pelo Tribunal do Santo Ofício pelo crime de sodomia; o poder familiar exercido por Quitéria Maria Rodrigues, que uniu estrategicamente as famílias Tavares da Cunha e Silva Passos; e o parentesco direto dos Tavares Terra, já no sertão paulista, com José Theodoro de Souza, bandeirante marcado por extrema violência. Esses achados mostram como muitas famílias  constroem narrativas para proteger sua memória e como a pesquisa histórica pode transformar ocultamentos em compreensão crítica do passado.

Para compreender o presente, há que se reconstruir o passado. (imagem freepick)

PPG+: Como a pesquisa em torno do livro mudou sua visão sobre sua própria vida e de seus familiares ?
Resposta: A pesquisa mudou profundamente minha forma de compreender minha própria história e a da minha família. Passei a enxergar minha trajetória não como algo isolado, mas como parte de um fluxo histórico marcado por deslocamentos, perdas e resistência.

Compreender as escolhas, os limites e as contradições dos meus antepassados, incluindo a herança genética e cultural dos visigodos e dos judeus sefarditas de origem portuguesa, tudo isso ampliou meu senso de pertencimento, mas também de responsabilidade diante dessa herança cultural e histórica complexa. Ao mesmo tempo, o processo trouxe um olhar mais humano sobre os que vieram antes. Percebi que preservar a memória não é repetir os mitos e as lendas, mas aceitar a complexidade do passado, com suas luzes e sombras. Esse entendimento ajudou a reconciliar identidade e história, transformando a pesquisa em um exercício de autoconhecimento e de maturidade ética.

PPG+: Há alguma ‘mensagem’ que gostaria de passar aos leitores para além da pesquisa genealógica ?

Resposta: A principal mensagem do livro é que a genealogia não se limita à descoberta de nomes ou origens, mas permite compreender processos humanos, sociais e históricos muito mais amplos. Ao encarar o passado com honestidade, somos levados a reconhecer não apenas conquistas, mas também as violências que moldaram nossas  famílias e o próprio país, rompendo com narrativas confortáveis e idealizadas. Tavares Terra propõe uma reflexão sobre memória, pertencimento e responsabilidade histórica, entendendo o conhecimento das raízes como um gesto ético, e não como simples nostalgia.

Esse compromisso ético aparece de forma especialmente dura ao tratar da questão indígena e da terra. A presença dos povos originários foi sistematicamente apagada com a chegada dos bandeirantes, dos sertanejos, dos bugreiros e dos desbravadores do sertão. As chamadas “entradas” e “razias” foram expedições violentas destinadas a expulsar ou eliminar indígenas para abrir caminho à apropriação e venda das terras, tanto no Paraná quanto na margem paulista do rio Paranapanema. A Lei de Terras de 1850 consolidou esse processo ao institucionalizar a grilagem, com registros forjados após a morte de José Theodoro de Souza, inclusive por parentes e por figuras conhecidas do poder local.

Esses mecanismos deram origem a conflitos fundiários que, em muitos casos, ainda persistem no Pontal do Paranapanema, mostrando como o passado segue operando no presente.

Gostaria apenas de acrescentar que Tavares Terra é um livro sobre pessoas reais e comuns: nem heróis e nem vilões. Ele parte da convicção de que o Brasil só pode ser compreendido quando olhamos para as margens: famílias anônimas, territórios esquecidos e memórias apagadas que sustentam, de forma invisível, a formação do país. Se a obra despertar no leitor o desejo de olhar para a própria história com mais curiosidade, senso crítico e humanidade, então terá cumprido seu papel. Preservar a memória é, acima de tudo, um gesto de cuidado com o presente e de responsabilidade com o futuro. Além disso, quero dizer que já tenho um romance finalizado, também ambientado no Pontal do Paranapanema, que aborda temas contemporâneos como mudanças climáticas, acesso à água, degradação ambiental e escassez de bens naturais. Embora seja uma obra de ficção, ela é profundamente influenciada pela pesquisa de Tavares Terra, pois, depois de mergulhar tão fundo na história, torna-se impossível separar completamente realidade e imaginação.

*Editora deste portal

Onde achar o livro Tavares Terra: Mercado Livre | Verdes Trigos

Portal Plena Gente+: informação que você usa e abre possibilidades de crescimento pessoal e profissional.   Compartilhe nossas publicações. Comente, curta!  Nós agradecemos!

Siga o PortalPlenaGente+ no Instagram e no Facebook

Portal Plena Gente+

ana.vargas@portalplena.com | Website |  + posts

Jornalista, autora de 5 livros, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *