Como todas as tardes, com o sol ainda sobre o horizonte, o corredor calçou seus tênis habituais e caminhou, já aquecendo-se, rumo ao circuito do abandonado parque local.
Miguel Quezada*
Com mais de cinquenta primaveras vividas e a cabeça cheia de ideias, aqueles minutos de trote eram mais do que exercício: eram um modo de apaziguar a mente, um momento de liberdade — um encontro consigo mesmo.
Embora seu passo fosse lento, correr havia se transformado em seu pequeno ato de glória. Descobrira que ainda podia empurrar o corpo um pouco além do cansaço.
Naquela tarde, trotando sob a temperatura amena, entre o céu pintado pelas cores do entardecer e o sol refletindo sobre o parque quase deserto — e apesar dos olhos nublados pelo suor — o corredor contemplou, do outro lado do circuito, uma figura solitária que avançava com uma cadência tão elegante e
precisa que parecia flutuar em vez de correr.
Ao ser ultrapassado pela figura, o nome estampado nas costas da desbotada camiseta despertou-lhe memórias do passado. Num relâmpago de sete segundos, viu-o avançando pelo asfalto com passadas longas e potentes; a camiseta sem mangas molhada pelo suor; o boné ajustado; liderando um pelotão de
corredores e ladeado por policiais em motocicletas…
Inevitavelmente, voltou a ser o menino maravilhado que o vira passar diante de si, descobrindo que os super-heróis existiam também fora das revistas em
quadrinhos.
Agora, lá estava ele outra vez… tac tac tac tac… quase meio século depois: o superatleta. O mesmo que ocupara manchetes nos anos setenta, convidado de honra nas competições escolares — o corredor lembrava-se de tê-lo visto dar a largada simbólica em alguma prova no pátio da escola.
Maratonista internacional, aquele que encheu de glória o esporte da cidade de Trujillo, onde até hoje é lembrado com admiração.
Diziam que ele havia pendurado os tênis há muito tempo, vencido pelas lesões e pelos anos. No entanto, lá estava: vivo, correndo, como se o tempo não o tivesse alcançado.
Sem perceber, o corredor começou a segui-lo — talvez por impulso, talvez por silenciosa admiração. Acelerou as pernas, controlando a respiração para acompanhar o ritmo do velho fundista, cuja passada era exata — nem agressiva, nem lenta. Parecia não correr para avançar, mas para habitar o movimento.
A pista de areia tornou-se um cenário memorável. A vida do atleta amador condensou-se no som leve de sua pisada e no ar quente que respirava e exalava. Deram apenas uma volta completa ao circuito, mas, para ele, compartilhar a pista com o consagrado atleta foi uma experiência significativa.
Logo, retomou seu próprio ritmo, abandonando a perseguição ao mito.
Meia hora depois, esgotado, parou, finalizando sua rotina. O velho campeão, ao passar, diminuiu o ritmo, virou-se, olhou-o nos olhos e esboçou um meio sorriso.
— Boa corrida. Não pare, caminhe — aconselhou-lhe, com voz entrecortada, e continuou correndo como se nunca tivesse diminuído o passo.
O corredor ficou ali, ofegante, com o peito lânguido e exausto — não apenas pelo esforço, mas pela estranha certeza de ter vivido algo que não saberia nomear. Em seguida, completou o percurso caminhando, sentindo cada passo como se fosse sua volta olímpica.
Nenhuma medalha no peito — a vitória estava na alma. Tinha corrido com Dom Pedro Horna, lenda viva do atletismo trujillense.
Pedro Horna Montoya: um legado que inspira as novas gerações
Aos 75 anos, o atleta trujillano Pedro Horna continua competindo em provas nacionais e internacionais, demonstrando que a idade não é um limite.
Foi vencedor das primeiras edições da Meia Maratona de Trujillo (1970, 1971, 1973 e 1975). Representou o Peru na corrida São Silvestre, em São Paulo (1975). Conquistou múltiplas medalhas em campeonatos máster e teve a honra
de carregar a Tocha Pan-Americana em 2019. Em 2022, o Congresso do Peru o condecorou por sua destacada trajetória. Desde 2009, Trujillo celebra seu legado com a “Corrida de Rua 10K “Corrida de Rua 10K Pedro Horna”.
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Jornalista, autora de 5 livros, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.







