Em 1996, 985 brasileiros perderam a suas vidas por conta de demência ou Alzheimer. Em 2023 o número foi de 34.279 mortes.
O Relatório Mundial de Alzheimer 2024, divulgado pela Alzheimer’s Disease International (ADI) em parceria com a London School of Economics and Political Science (LSE), apresenta verdades duras que não podem ser ignoradas. A demência, que afeta mais de 55 milhões de pessoas no mundo, continua cercada por desinformação, preconceito e, muitas vezes, negligência.
O estudo revela que 80% das pessoas ainda acreditam, equivocadamente, que a demência é uma consequência natural do envelhecimento, ignorando que se trata de uma condição médica grave, como o Alzheimer. No Brasil, onde aproximadamente 2 milhões de pessoas vivem com demência, esse número pode triplicar até 2050. Diante desse aumento iminente, é necessário que a sociedade e as autoridades tomem medidas concretas para lidar com essa realidade.
Existe um Brasil que aos poucos está se esquecendo. Fogem das memórias os nomes dos filhos, o sorriso das pessoas que amam e escapa também, dentro do universo encefálico de suas mentes, a vida que decidiram viver. Tudo isso por conta de um inexplicável erro no processamento de certas proteínas dentro do sistema nervoso central.
São pedaços de proteínas que aparecem ainda sem muitas explicações e se tornam tóxicas para os neurônios e sinapses. Desencadeia-se um verdadeiro colapso de memórias e sentimentos. É assim que surgem as doenças demenciais. É assim que mais de 385 mil brasileiros “desapareceram” de si e morreram nas últimas três décadas.
É fundamental que o Brasil passe a se importar com o crescimento do número de vidas afetadas diretamente por conta das doenças. Em 1996, foi apontado que 985 brasileiros perderam a suas vidas por conta de algum grau de demência ou Alzheimer. No ano passado, o número foi de 34.279 pessoas. Isso representa um aumento de 3.380% nas últimas décadas.
Memórias roubadas
O professor da Universidade de Brasília (UnB) Otávio de Toledo Nóbrega, membro da seção do Distrito Federal da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG-DF), explica que o córtex cerebral costuma ser uma das áreas mais prejudicadas pela doenças demenciais, principalmente nas regiões temporais e parietais, na lateral do crânio. A literatura médica aponta também alterações no hipotálamo e no hipocampo.
Áreas que administram parte essencial de quem somos. São algumas gramas de massa cinzenta que conduzem a personalidade e a forma como lidar com as lembranças que construímos durante toda a vida. No entanto, com o desenvolvimento da demência, as regiões são afetadas diretamente. Pode-se, inclusive, morrer sem noção nenhuma do quem tenha sido.
“A ciência até entende bem o defeito que acontece no cérebro para desenvolver Alzheimer, especificamente. A gente sabe que os principais defeitos são bioquímicos, em que proteínas alteradas se acumulam no cérebro. Principalmente, uma proteína chamada beta-amiloide, que se acumula demais e acaba funcionando como substância tóxica dos neurônios, impedindo que as transmissões nervosas aconteçam”, comenta o especialista.
Sobre o aumento exponencial dos casos e mortes por doenças demenciais no país, Nóbrega salienta sobre uma “revolução da longevidade”, causando uma mudança muito drástica e importante na estrutura etária brasileira, representada principalmente pela maior expectativa de vida. Com o maior número de idosos e prolongação da vida, por consequência, há também pessoas mais suscetíveis às doenças demenciais. No entanto, o crescimento das mortes vai além disso.
Também existem outras razões que merecem ser levadas em consideração, principalmente nas falhas em garantir as medidas preventivas, como evitar o sedentarismo e incentivar a escolarização, além de um maior apoio para os familiares e cuidadores. “Lá em 1990, a gente já sabia que ia acontecer. A gente que é estudioso, quem está na área e luta nessas questões, mas sempre tivemos uma dificuldade muito grande de impressionar a classe política brasileira no sentido de acordar para essa realidade e tomar as medidas necessárias”, comenta o professor da UnB.
O médico aponta que é fundamental incentivar uma “cultura gerontológica”, preparando as pessoas para a ideia de que a vida é feita de fases e que todas pessoas vão envelhecer e precisam se preparar para isso. “O que nós estamos entendendo é que o Brasil, infelizmente, é um país que não se preparou para envelhecer. Nós não melhoramos os nossos serviços públicos, que ainda deixam muito a desejar. Nós não enriquecemos enquanto economia, estamos patinando. A gente não adaptou os nossos serviços de saúde, nem de previdência social para poder dar conta de todos esses idosos que virão.[..] Tudo isso, infelizmente, acende uma luz vermelha”, continua.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma pandemia se caracteriza pela disseminação mundial de uma doença quando uma epidemia, surto que afeta certa região, se espalha por diferentes localidades. Por conta do elevado crescimento dos casos de demência em vários países, o professor Otávio de Toledo Nóbrega considera que estaríamos vivendo uma pandemia da condição.
“É como se a gente pudesse, sim, dizer que estamos passando por uma pandemia de Alzheimer e que vai se intensificar. Existe uma organização internacional chamada International Alzheimer Association, que junta estatísticas internacionais relativas à frequência do Alzheimer. A instituição estima que há 50 milhões de pessoas afetadas por demência no mundo. No entanto, quando for a 2050, já serão 150 milhões. Ou seja, vai triplicar no curso das próximas duas décadas e meia”, afirma Nóbrega.
Fontes: Federação Brasileira das Associações de Alzheimer e Jonatas Martins- Metrópoles
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Jornalista, autora de 5 livros, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.






