COLUNA LONGEVA_ Gerontologia: Quando a profissão que pensa o envelhecimento é invisibilizada.

O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Dados oficiais mostram que, em poucos anos, teremos mais pessoas idosas do que crianças no país. 
Camila Pereira*
Ainda assim, uma contradição persiste: a Gerontologia, ciência que estuda o envelhecimento de forma ampla, interdisciplinar e estratégica, segue desvalorizada, pouco compreendida e, muitas vezes, confundida com outras ocupações — especialmente com a função de Cuidador de Idosos.
É fundamental deixar claro: não se trata de desmerecer nenhuma categoria.
O cuidador exerce um papel essencial no cuidado direto, na rotina e no apoio à pessoa idosa. Contudo, Gerontologia e Cuidado não são a mesma coisa, nem possuem as mesmas atribuições, formações ou responsabilidades técnicas.
O gerontólogo, especialmente o Tecnólogo em Gerontologia — que hoje representa a maioria dos formados no país — é um profissional com formação holística e transversal, preparado para atuar em múltiplos setores:
engenharia e acessibilidade, urbanização, comércio, moda inclusiva, políticas públicas, assistência social, gestão de serviços, tecnologias assistivas, adaptação ambiental, educação, consultoria e planejamento estratégico para o envelhecimento ativo e saudável.
Sua atuação não se limita à área da saúde, embora dialogue com ela.
Mesmo assim, o que vemos na prática é uma realidade dura:
  • confusão entre cargos e atribuições;
  • ofertas de trabalho com salários incompatíveis com a formação;
  • exigência de múltiplas competências por valores próximos — ou inferiores — aos pagos a funções que exigem menor qualificação técnica;
  • escassez de concursos, vagas institucionais e reconhecimento formal.
O déficit salarial atinge tanto cuidadores quanto gerontólogos, reflexo de um sistema que ainda não compreendeu o valor do envelhecimento planejado.
No entanto, para quem se forma em Gerontologia, a frustração é agravada pela falta de identidade profissional consolidada, pela ausência de um conselho forte e pela dificuldade de inserção no mercado mesmo sendo uma das áreas mais promissoras do século XXI.
Em 2025, apenas a Rede Anhanguera formou mais de 5 mil Tecnólogos em Gerontologia, espalhados por todo o território nacional. A procura pelo curso cresceu, o valor da graduação aumentou e o interesse pela área se expandiu.
A pergunta que ecoa entre formados e formandos é direta e incômoda:
o que fazer após a formatura?
Muitos ainda não conhecem a Gerontologia. Outros a reduzem, equivocadamente, a um “curso de cuidador”. Essa visão limitada fecha portas, apaga competências e desperdiça um potencial gigantesco em um país que envelhece sem planejamento estrutural, social e humano.
A verdade é que a Gerontologia é estratégica para o futuro do Brasil. Ela conecta áreas, propõe soluções, antecipa problemas e constrói ambientes mais justos para todas as idades. Ignorá-la hoje é pagar um preço alto amanhã.
Diante desse cenário, 2026 precisa marcar um ponto de virada.
Nós, formados e formandos em Gerontologia, precisamos nos unir, fortalecer nossa identidade, ocupar espaços, dialogar com a sociedade e cobrar políticas públicas. A luta pela aprovação da PL 9003 não é apenas uma pauta corporativa — é uma necessidade social.
A Gerontologia tem voz, força e relevância.
E este país que envelhece a cada dia vai precisar, cada vez mais, de profissionais capazes de pensar o envelhecimento para além do cuidado: com dignidade, inclusão, inovação e visão de futuro.
A Coluna Longeva segue sendo espaço de reflexão, denúncia e mobilização.  Porque envelhecer é inevitável — envelhecer bem é uma construção coletiva.
*É estudante de Gerontologia do último ano e escreve semanalmente no PortalPlenaGente+ siga a Camila no Instagram @ca_pereira20.

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Jornalista, autora de 5 livros, um deles semifinalista do Prêmio Oceanos 2020.

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