Sexualidade e velhice: psicólogo defende, em estudo, a importância desse aspecto para uma vida longeva com qualidade.

O psicólogo Fabrício Oliveira aborda neste artigo o quanto a sexualidade é essencial para que os idosos vivam essa etapa da vida de forma satisfatória, no entanto, ele ressalta que os preconceitos em torno desse tema  são muitos e existem, até mesmo, entre os profissionais de saúde.

Fabrício Oliveira*

O crescimento da população idosa é um fenômeno mundial e, no Brasil, as modificações ocorrem de maneira repentina e acelerada. As projeções mais conservadoras indicam que, em 2020, o Brasil será o sexto país do mundo em quantidade de idosos com um contingente superior a 30 milhões de pessoas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2010).

Nesse contexto, verifica-se uma conduta incoerente da sociedade brasileira, pois enquanto nossa população envelhece rapidamente, observamos que, quando se trata de pessoas idosas, as práticas amorosas e as manifestações sexuais não são aceitas com naturalidade.

 Isso porque as vivências da sexualidade, afetividade e intimidade que estão genuinamente unidas, são negadas nas sociedades ocidentais, assim esses elementos fundamentais para uma boa vida são negados ou substituídos por outros, fato que contribui para que a pessoa idosa não vivencie a singularidade desses sentimentos.

É importante ressaltar que a sexualidade corresponde a uma função vital do ser humano na qual se inserem múltiplos fatores de ordem biológica, psicológica, social e cultural.

Portanto, a sexualidade na velhice, assim como nas demais faixas etárias, não se refere somente à prática sexual em si, mas à troca de afeto, carinho, companheirismo, cumplicidade, cuidados mútuos, segurança e conforto, nesse sentido,  a relação sexual entre pessoas idosas está intrinsecamente ligada ao processo de intimidade que há entre o casal.

A dificuldade de reconhecer a sexualidade nos idosos baseia-se em vários fatores originados na interpretação sociocultural que reforça o culto a corpos perfeitos, ao vigor físico e à juventude. Portanto, a sociedade dita as regras, estabelece os limites da sexualidade e demarca as condições e as aceitações que a prática ao culto jovem e ao consumo de novas imagens e ideias provocam em discussões acerca do envelhecimento carregadas de estereótipos e de segregação. Enfatizar a beleza física e usar o corpo para atrair o outro são práticas comuns do ser humano.

No entanto, é importante lembrar que na terceira idade não se deixa de amar, mas reinventam-se formas amorosas. É de extrema importância poder pensar que a partir da redescoberta do sexo e do amor, enfim, de sua sexualidade, as pessoas mais velhas reconquistam o lugar vital de homem e mulher e não mais o de “velho”, que tem como futuro o fim da vida. Novamente, é na relação com o outro que está à importância da redescoberta do desejo de viver pois as fantasias sexuais, sob forma de sonho ou sublimadas em expressões artísticas, retomadas na relação direta de namoro ou na relação com os familiares, netos, bisnetos, amigos, recolocam os idosos na vida, independentemente da idade ou da limitação física.

Vários elementos são apontados como determinantes ou indicadores de bem estar na velhice como: longevidade; saúde biológica e  mental; satisfação; controle cognitivo; competência social; produtividade; atividade; eficácia cognitiva; status social; renda; continuidade de papéis familiares e ocupacionais;  continuidade de relações informais em grupos primários (principalmente rede de amigos). Se além desses elementos, a maturidade trouxer o afeto, a paixão, o namoro, o amor, o sexo, a cumplicidade, o companheirismo, dentre outros, o idoso pode estar certo que poderá ter uma satisfatória vida afetiva onde as possibilidades de relacionamento amoroso, nesta etapa da vida, apesar de algumas vezes serem difíceis, são mais viáveis do que muitas pessoas imaginam.

No entanto, é importante lembrar que na terceira idade não se deixa de amar, mas reinventam-se formas amorosas. É de extrema importância poder pensar que a partir da redescoberta do sexo e do amor, enfim, de sua sexualidade, as pessoas mais velhas reconquistam o lugar vital de homem e mulher e não mais o de “velho”, que tem como futuro o fim da vida.

A capacidade de amar é atemporal

A sexualidade na velhice é simples e, ao mesmo tempo, complexa, afinal o corpo envelhece, a anatomia e a fisiologia sexual se modificam, mas a capacidade de amar, de beijar e abraçar continua intacta. Um olhar e o companheirismo têm muito mais significado do que o ato sexual propriamente dito.

Existem muitos mitos comuns e concepções errôneas sobre sexo e envelhecimento, como pensar que sexo não tem importância na velhice, que os últimos anos deveriam ser assexuados, que é anormal os idosos terem interesse por sexo e normal que os homens idosos procurem por mulheres mais jovens. Esses mitos prejudicam, sobretudo, as mulheres idosas, que, frequentemente, ao atingirem a terceira idade já se sentem incapazes de manter um bom relacionamento sexual. É importante entender que entre a população idosa a libido não diminui, mas há redução na frequência da atividade sexual. Além dessas alterações, muitos idosos podem fazer uso de medicações que deprimem a atividade sexual, como os anti-hipertensivos, antidepressivos, sedativos, tranquilizantes ou hipnóticos.

A nossa cultura persiste em acreditar em alguns mitos que perpassam sobre a sexualidade da pessoa idosa, entre eles o mito de que todo idoso é assexuado, de que a mulher idosa tem o desejo sexual reduzido e os homens terão  disfunção erétil. As pessoas idosas apontam ainda que o preconceito prevalece mais nas pessoas jovens do que nos próprios idosos.

A sexualidade e o amor não possuem idade, estão presentes desde o nascimento até a morte e contribuem para uma maior satisfação com a vida em geral. Compreende-se também que as expressões de afeto, carinho, sensação de aconchego, capacidade de amar e o desejo por intimidade não acabam em nenhuma idade, podem ser realizados por toda a vida e sua manifestação é vital para o desenvolvimento das pessoas mais velhas pois proporciona auto-estima e realização pessoal.

 

A nossa cultura persiste em acreditar em alguns mitos que perpassam sobre a sexualidade da pessoa idosa, entre eles o mito de que todo idoso é assexuado, de que a mulher idosa tem o desejo sexual reduzido e os homens terão  disfunção erétil. As pessoas idosas apontam ainda que o preconceito prevalece mais nas pessoas jovens do que nos próprios idosos.

Diante disso, negar a sexualidade das pessoas idosas é privá-las de direitos. Torna-se assim imprescindível romper com mitos, tabus e preconceitos relacionados à sexualidade dos idosos para que as pessoas dessa faixa etária  possam exercê-la em busca de uma velhice com mais dignidade. É fundamental ainda que os profissionais de saúde colaborem para desconstruir essa concepção preconceituosa sobre a sexualidade da pessoa que envelhece, pois, a sexualidade é uma parte importante da existência humana em qualquer etapa da vida. Em qualquer idade é sempre tempo de viver, de expressar e de amar.

*Francisco Fabrício Frimino de Oliveira

Psicólogo pelo Centro Universitário de João Pessoa – UNIPÊ, em 2013. Especialista em Gestão com Pessoas e Psicologia Organizacional pela UNIPÊ, em 2015. Pós –Graduado Sobre Envelhecimento – Geriatria Prática no Hospital da Universidade de Coimbra – Portugal, em 2016. Pós Graduado em Gerontologia pelas Faculdades Integradas de Patos – FIP. Mestrando em Ciências da Saúde pelo Centro Integrado de Ensino UNICORP, em 2017 a 2019.

 

imagem de abertura: Photo by adwriter on TrendHype / CC BY-NC

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