prostitutas do Jardim da Luz

As velhas prostitutas do Jardim da Luz

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Porque não nos encaram, não respondem de modo sincero, parecem fantasiar demais sobre o mundo e sobre suas vidas; parecem tão ingênuas que até nos esquecemos que são simplesmente velhas prostitutas…

 

Elas são mulheres envergonhadas dessas que não conseguem olhar nos olhos das outras pessoas. Elas são quase sempre tímidas, parecem enfrentar um enorme constrangimento e não se sentem à vontade ainda que estejam em um lugar tão bonito quanto é esse acolhedor e belíssimo Jardim da Luz.

Elas se chamam ‘marias’ ,  ‘neusas’ ou ‘franciscas’; elas têm mais de 60 anos de idade e algumas mentem a idade porque, simploriamente, acreditam que essa suave mentira pode, de fato, torná-las atraentes. Mas o que menos está em jogo por aqui é atração física, porque nesse ambiente devidamente envolto por fantasias (não só sexuais) parece existir, veladamente, um jogo no qual os jogadores também são as peças chave e isso é extremamente confuso e intangível.

O dia é maravilhoso sim; e pelas alamedas antigas desse parque ensombreado por árvores centenárias e ao lado da Pinacoteca do estado de São Paulo, vemos todo tipo de gente: desde casais normalíssimos caminhando ou correndo, passando por senhores aposentados que possuem semblantes conformados e  poderíamos dizer, semblantes tão gastos quanto suas roupas antiquadas; até jovens e  crianças que passeiam despreocupados, sentam-se sobre a grama e enfim,  exercem com naturalidade o direito à viverem  suas vidas.

E é ali bem perto do grande portão que  está diante do (recentemente incendiado)Museu da Língua Portuguesa que Marli se oferece para um programa ou como ela diz, quase romanticamente, ‘para fazer um amor gostoso’. Marli é pernambucana, diz ter 65 anos, e o preço do seu ‘amor gostoso’ está entre 15 e 30 reais. Ela diz que não faz sempre esse tipo de trabalho ‘só quando vai ao médico no bom retiro’; ela também afirma ter um filho evangélico que nem de muito longe imagina que a mãe vende seu ‘amor gostoso’ ali nas alamedas do Jardim da Luz. Marli tem os olhos esverdeados e eles se iluminam ainda mais porque o Jardim da Luz deve ter esse nome por alguma razão especial: parece que ‘tudo’ ali dentro – prostitutas velhas e jovens; homens de rostos transtornados ou comuns; adolescentes e policiais _ se deixa banhar ou envolver por uma cintilância que transforma a realidade tão triste dessas prostitutas, em histórias de vida (até certo ponto) aceitáveis e banais.   

Mas apesar disso,  não há nenhuma banalidade _ ou não deveria haver_ no fato de que estas mulheres com mais de 60 anos sejam prostitutas e estejam aqui oferecendo seus corpos em troca de 30 reais (negociáveis) ou até mesmo 15 reais?

Se a prostituição é uma atividade degradante _ e talvez exatamente por isso, deva ser encarada com o respeito que merece _ para mulheres e homens de qualquer idade e que recebam qualquer remuneração; imagine para essas senhoras que se vendem numa praça pública  e são obrigadas  disputar os olhares dos que passam com moças mais jovens.

Mulheres que são mães e avós, que têm filhos adultos que ignoram as atividades maternas; que casaram e descasaram e que poderiam agora brincar com os netos ou que poderiam simplesmente ficar em casa…Mas elas, essas senhoras do jardim da luz, não querem nada disso e não devem (nunca) serem julgadas por suas opções.

Talvez devêssemos somente lamentar o fato de que elas chegam à velhice vendendo a preço tão baixo, seus corpos tão cansados e esmagados pelas tantas pressões diárias e, se não estivessem aqui,  elas talvez  fossem mulheres como as outras de suas idades, que gostam de ficar em suas casas curtindo os netos, olhando fotografias antigas ou lendo e vendo TV. Talvez elas até gostassem de tricotar ou fossem como as idosas modernosas atuais que fazem tatuagens de dragões, colocam piercings no nariz e por aí afora.

Elas poderiam escolher qualquer caminho; mas a impressão que se tem é que estão aqui no Jardim da Luz vendendo seus corpos, com grande tristeza e desconforto…Porque não nos encaram, não respondem de modo sincero, parecem fantasiar demais sobre o mundo e sobre suas vidas; parecem tão ingênuas que até nos esquecemos que são simplesmente prostitutas; essa classe de mulheres ainda hoje discriminada, ainda que saibamos que as relações sexuais da pós-modernidade também foram e são amplamente vulgarizadas de forma excessiva e assustadora.

Numa ‘paisagem’ como essa quem seriam os clientes das velhas prostitutas do também velho Jardim da Luz.. Pois são jovens viciados em crack, senhores que têm a mesma idade que elas ou são alguns anos mais jovens. 

Talvez devêssemos somente lamentar o fato de que elas chegam à velhice vendendo a preço tão baixo, seus corpos tão cansados e esmagados pelas tantas pressões diárias e, se não estivessem aqui,  elas talvez  fossem mulheres como as outras de suas idades, que gostam de ficar em suas casas curtindo os netos, olhando fotografias antigas ou lendo e vendo TV. Talvez elas até gostassem de tricotar ou fossem como as idosas modernosas atuais que fazem tatuagens de dragões, colocam piercings no nariz e por aí afora.

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